Você sofre de transtorno explosivo intermitente?
Cresce o número de ocorrências de brigas de trânsito. Estresse ao volante tem até grupo de risco: jovens com idades entre 19 e 29 anos. Por Hugo Souza
“O senhor Walker mora num bairro tranquilo, de pessoas decentes. Ele é um típico homem comum. Considerado um bom cidadão e de inteligência razoável. É um homem gentil, amável, pontual e honesto. O senhor Walker não machucaria uma mosca, tampouco uma formiga. Ele acredita em ‘viva e deixe viver’. O senhor Walker possui um automóvel e se considera um bom motorista. Mas quando ele pega no volante acontece um fenômeno estranho. O senhor Walker se deixa levar pela forte sensação de poder. Sua personalidade muda completamente, e de repente ele se transforma em um monstro incontrolável, um motorista diabólico. O senhor Walker é agora o senhor Wheeler, o motorista!”.
Esta é a narração introdutória de um mítico desenho animado da Disney protagonizado pelo personagem Pateta que de forma brilhante satirizou a agressividade no trânsito.
O “senhor volante”, como ficou conhecido no Brasil, irrita-se com pedestres, perde a paciência num cruzamento movimentado, não tolera a buzina alheia, fica descontrolado ao ser o primeiro da fila no sinal vermelho (“Trinta segundos perdidos da vida!”), supõe que outros motoristas o estão desafiando para um “pega” e está sempre pronto para brigar com quem está no carro ao lado, no carro de trás ou na carro da frente. Soa familiar?
Grupo de risco
A Polícia Militar de São Paulo, por exemplo, recebe 70 chamadas por dia para resolver brigas de trânsito na capital do estado, o que significa mais ou menos uma ocorrência a cada 20 minutos na maior cidade da América Latina, conhecida pelos negócios, cultura, garoa e pelo trânsito caótico. Há apenas três anos o número era de 40 chamadas diárias. Pelo menos 20 desses casos registrados envolvem agressão física.
Especialistas internacionais dizem que o estresse ao volante, quando recorrente, extrapola a esfera das questões comportamentais, enquadrando-se mesmo em uma doença psicológica com nome, sobrenome e sigla: transtorno explosivo intermitente (TEI), mal que acomete aproximadamente 6% da população mundial. E não se pode dizer que o TEI é uma doença dos tempos do “carmageddon” (apelido apocalíptico para uma realidade, digamos, de engarrafamento permanente): há mais de 60 anos psicólogos estudam a relação do transtorno com a saúde pública.
A agressividade no trânsito tem até um grupo de risco: os jovens com idades entre 19 e 29 anos. Mas todos os motoristas podem fazer o teste do portal Veja.com (http://veja.abril.com.br/testes/agressividade-transito.shtml) para um autodiagnóstico.
Pateta ao volante
Segundo a Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), são três os tipos de estresse que deixam o motorista prestes a explodir: estresse físico (o sono, o cansaço do dia a dia), estresse psicológico (aquele que deixa o motorista tenso ao volante. O medo de ser assaltado, por exemplo) e estresse social (ansiedade pelo tempo que se perde parado no trânsito).
Via Twitter, a Abramet dá uma dica para encarar o trânsito com mais tranquilidade: “O ideal é que no tráfego se busque um lazer dentro do veículo. Fazer um alongamento, liberando no organismo endorfina, substância analgésica que produz uma sensação de bem estar”.
Neste 25 de julho, Dia do Motorista, não faça como o senhor Wheeler, o Pateta ao volante. No fim do desenho ele bate por causa do estresse e da agressividade, mas não para de gritar: “Vamos lá! Anda logo! Sai da minha frente seu folgado!”. Só que desta vez para o reboque que leva seu carro enganchado…
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