sexta-feira, 25 de agosto de 2017

GILMAR MENDES FALA A VEJA

 O ministro garantiu que não trabalha contra a operação, mas apenas para que ela cumpra rigorosamente o que manda a Constituição. Tudo isso, acrescenta, em nome da coletividade.
Na semana passada, Gilmar Mendes, apesar da avalanche de críticas, continuava impassível. Ameaça à Lava-Jato? Bobagem, diz ele, ressaltando que sua missão, e a do Supremo, é fazer com que a investigação não fuja da baliza constitucional.
Por que o senhor mandou soltar mais uma leva de corruptores? Tenho repetido muito uma frase de Rui Barbosa: “O bom ladrão salvou-se, mas não há salvação para o juiz covarde”. Houve uma massiva propaganda no sentido de dizer que só se faz Justiça com prisão. Agora a prisão preventiva ganhou outra conotação, e o objetivo é proceder e induzir a delação. Se é assim, estamos usando a prisão preventiva como um instrumento de constrangimento e talvez até de tortura.
Dizem que o senhor é uma ameaça à Lava-Jato. Isso é uma bobagem. A Lava-Jato será bem-sucedida enquanto ela se mantiver nos trilhos do estado de direito. Se ela descambar, será fatalmente atingida. Sempre elogiei a Lava-Jato.
O STF pode rever acordos de delação já fechados? Se há uma coisa de que não tenho dúvidas é que o acordo de Joesley Batista (dono do grupo JBS) vai ser revisto, porque certamente não correspondeu à legalidade. Se o tribunal entender que ele é chefe de quadrilha, vai cair a delação. Se cometer novos crimes, cairá a delação.
A soltura de presos preventivos e a anulação de delações não comprometem a Lava-Jato?Há delações que não possuem base fática e estão sendo desmontadas. Isso tem a ver com más práticas do Ministério Público.
Como avalia os pedidos de impedimento apresentados contra o senhor? Você sabe o que penso do Janot. Vi Jacob Barata uma vez. Eles presumem uma desonestidade de antemão, e isso é uma bobagem. Se eu tivesse vulnerabilidades, eu teria essa capacidade de enfrentamento e a independência que tenho?
O senhor está propondo rever a prisão após a condenação em segunda instância. Isso agrada a muita gente poderosa que se encontra presa. Sou um mau profeta, porque as coisas que eu falo acontecem. A prisão em segunda instância se transformou em uma prisão preventiva continuada. É razoável que, olhando o contexto, a gente continue com isso? Não. Isso não faz sentido.
O senhor é criticado por se reunir com políticos, pessoas que eventualmente terá de julgar. Você já me viu preocupado ou depressivo? Só fico chateado quando me imputam coisas que não fiz. Na verdade, tenho certeza de que estou defendendo as próprias pessoas. Se a gente deixar que um estado autoritário se instale, a vítima obviamente não serei eu. Será seu filho. Será você. Essa é a minha convicção. Não estamos disputando concurso de miss simpatia.
Publicado em VEJA de 30 de agosto de 2017, edição nº 2545

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